Lesões de Isquiotibiais: Fatores de Risco

Lesões de Isquiotibiais: Fatores de Risco

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As Lesões de isquiotibiais, os músculos da região posterior da coxa, vem cada vez mais sendo alvo de estudos, e não por acaso apresenta uma grande taxa de presença nos esportes, gerando prejuízos para os times, no aspecto humano e também financeiro, jogador que não entra em campo/quadra/pista não é visto não gera patrocínio e não marca pontos… em mas o que vim aqui debater é como podemos melhorar nossa abordagem a nesse ponto.

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Um ponto a ser debatido, e eu mesmo quando era atleta sempre fui orientado desta forma: “Alongue para evitar lesões!”, e lá íamos nós alongando e alongando, tocando a testa nos joelhos, mas será que existe mesmo uma relação direta entre flexibilidade e redução das lesões de isquiotibiais ?

 

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A favor desta associação temos autores como Mason et al 2012, van Mechelen 1993, Bradeley e Portas 2007, Dadebo et al 2004, já autores como Engebretsen et al 2010, Gabbe et al 2006,, não encontraram relação entre o alongamento e a prevenção de lesões, sendo que um dos fatores foi a baixa adesão aos exercícios, mas o que não foi analisado nestes exercícios foram variáveis como coordenação motora, e força muscular. 

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O maior problema com estes estudos é o reducionismo de fenômenos complexos, multifatoriais separados em apenas um elemento.

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O que pode ser interessante é a avaliação de musculaturas contralaterais e antagônicas, ou seja dos flexores de quadril contralateral, onde uma falta de flexibilidade desta musculatura poderia alterar a postura do quadril no espaço e ai sim, dificultar a posição ideal dos isquiotibiais.

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Chumanov et al 2007, concluiu em seu estudo que o psoas contralateral influencia mais no comprimento dos isquiotibiais do que a flexibilidade do próprio músculo em si. Somado a este achado temos o estudo de Riley et al 2010 que conseguiu demonstrar que durante uma corrida de velocidade o pico de alongamento do psoas da perna de apoio no solo ocorre ao mesmo tempo que o pico de alongamento dos isquiotibiais do lado oposto. 

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Esta coordenação entre estes músculos contralaterais e antagônicos define a técnica do atleta, e dependente da técnica do atleta e da tarefa escolhida. Uma explicação para essas associações durante a corrida pode ser devido ao Iliopsoas causar uma rotação anterior da pelve e isso pode levar a um aumento do comprimento e da ação elástica (isométrica + alongamento/encolhimento do tendão) dos isquiotibiais contralaterais durante a fase de balanço, o mesmo podemos extrapolar para bailarinos ao saltar com as pernas em direções opostas. 

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Então para aumentar os ganhos na flexibilidade do movimento em questão devemos ganhar coordenação do gesto motor e flexibilidade da musculatura contralateral. 

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Além da flexibilidade que falamos neste post, as ações excêntricas e isométrica como já falamos em outro post sobre o salto profundo, vamos detalhar mais como esse tipo de contração, e as relação entre as forças de músculos antagonistas podem influenciar na probabilidade de lesões dos isquiotibiais. 

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A maioria dos estudos sugere que  aumento de força ajuda a prevenir as lesões nos isquios, normalmente fazendo a relação de força de extensão/flexão de joelho, ou seja comparando a relação em um dinamômetro isocinético em uma postura sentada, que já discutimos anteriormente não é nada próximo da realidade e acaba por não levar em consideração a postura do quadril e a influência dos flexores de quadril, outra forma de avaliar é comparar a força de um lado com o outro. (Guex et al 2016, Mendiguchia et al 2015, Sugiura et al 2008).

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Estas duas formas de avaliar tem em comum um aspecto, a avaliação é monoarticular para um músculo biarticular, que normalmente rompe em movimentos triplanares (nos três planos), que são realizados por um organismo complexo (ser humano) em situações de sociabilidade mais complexas ainda (entenda como jogo ou esporte).

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Ultimamente vem crescendo nas academias e no meio esportivo a prática de um exercício muito antigo, conhecido como Nordic Hamstring ou Flexão Nórdica, onde o sujeito fica de joelhos, preso pelos tornozelos e deve inclinar o tronco a frente, esse exercício trabalha de forma excêntrica os isquiotibiais, dando-lhes a capacidade de frear o movimento; será? 

 

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Outra modalidade mais moderna da flexão Nórdica tem aparecido, o Razor Curl, onde o sujeito usa uma flexão de quadril e desloca o corpo na horizontal para a frente, na mesma postura de joelhos como no Nórdico. 

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Ambos exercícios causam grandes alterações na arquitetura muscular, como aumento no comprimento dos fascículos e redução do ângulo de penação das fibras. Quando ocorre aumento no comprimento de fascículos, isso pode indicar uma maior disponibilidade de sarcômeros em séries, que tem como consequência um aumento na velocidade de contração do músculo e que por sua vez reduz a capacidade de produção de força bruta (o total de peso que se levanta de uma vez), assim como na capacidade de produzir tensão e rigidez muscular (Cuthbert et al 2020, Pollard et al 2019, Bourne et al 2017, Presland et al 2018).

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Para aumentar a força deveríamos ter aumentado o número de sarcômeros em série, junto com um aumento da circunferência muscular. (Kramer et al 2012). Quanto a redução do ângulo de penação, quanto maior este ângulo maior será também a circunferência do músculo, ou melhor, a área de secção transversa dele. Em isquiotibiais, essa  valência aumentada não parece ser a melhor estratégia, visto que em corrida e esportes eles precisam imprimir força/velocidade em ângulos mais eficientes. 

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O que sabemos é temos certeza é que treinar um gesto melhora aquele gesto, se você treinar o nórdico ficará bom em realizar o nórdico, se treinar agachamento ficará bom em treinar agachamento (Mendiguchia et al 2020, Bourne et al 2018, Guex et al 2016, Mjølsnes 2004) e sempre levar em consideração que treinando em ângulos diferentes teremos resultados diferentes para os mesmos exercícios (Šarabon et al 2019). 

 

 

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Então como se prevenir de uma lesão de isquiotibiais? 

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Bem, como qualquer lesão, esse é um problema multifatorial, onde devemos levar em consideração, não apenas o músculo de forma isolada, mas onde ele está se prendendo, quais articulações estão ao seu redor e podem influenciar nele diretamente, qual a quantidade de estresse que o sujeito recebeu nos últimos treinamentos, qual o estresse fisiológico, quantidade de sono, capacidade de treinamento em seu ambiente de competição. Vou começar uma pequena série falando sobre Sistemas Complexos e como estes estão intimamente ligados ao nosso dia a dia da reabilitação ao esporte, da prevenção a volta à prática.

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Além de levarmos em consideração o que já debatemos em outros artigos, é excêntrico, concêntrico ou isométrico? essa parte vou falar mais nos próximos artigos aqui no blog. 

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Forte abraço e bons estudos.

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L.Job

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Referencias

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Bourne MN, Timmins RG, Opar DA, Pizzari T, Ruddy JD, Sims C, Williams MD5, Shield AJ - An Evidence-Based Framework for Strengthening Exercises to Prevent Hamstring Injury. - Sports Med. 2018 Feb;48(2):251-267. doi: 10.1007/s40279-017-0796-x.

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Cuthbert M, Ripley N, McMahon JJ, Evans M, Haff GG, Comfort P.-The Effect of Nordic Hamstring Exercise Intervention Volume on Eccentric Strength and Muscle Architecture Adaptations: A Systematic Review and Meta-analyses. - Sports Med. 2020 Jan;50(1):83-99. doi: 10.1007/s40279-019-01178-7.

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